Tem uma hora do dia, quase sempre quando a casa fica quieta, que bate um buraco. Não é tristeza. Não é tédio. É uma fome que não é do estômago, que aperta sem motivo e não passa com nada que você põe pra dentro.
A gente conhece ela de outros lugares. Do domingo à tarde, quando o tédio vira uma melancolia sem nome. Da noite em que a gente rola o feed até tarde, fritando a mente de dopamina. Do "tenho tudo o que eu queria e mesmo assim tô vazio", que a gente não fala em voz alta porque parece ingratidão.
A gente já tentou encher esse buraco de consumo, de conquista, de autoajuda, de hack de alta performance. E falhou sempre. Todas essas coisas mexem, dão movimento, mas não preenchem. Só anestesiam por uns dias.
Elas anestesiam porque a fome que a gente tem é feita pra uma coisa que não acaba, e a gente vem alimentando ela de coisa que acaba. O finito nunca enche essa fome.
O inimigo aqui é esse loop: consome → alívio curto → vazio de novo → consome mais. Continuar assim tem um preço. É mais uma década nesse loop, gastando dinheiro, tempo e segundas-feiras, com a mesma fome no fim.