Tem uma hora, quase sempre quando a casa fica quieta, que bate um aperto sem motivo. Não é tristeza. Não é tédio. É uma fome que não é do estômago, e não passa com nada que você põe pra dentro.
A gente conhece ela de outros cantos. Do domingo três da tarde, quando o tédio vira uma melancolia sem nome. Da noite rolando o feed até tarde, fritando a cabeça de dopamina. Do "tenho tudo o que eu queria e mesmo assim tô vazio", que a gente não diz em voz alta porque soa como ingratidão.
Você já tentou encher esse buraco. De consumo, de conquista, de autoajuda, de mais um hack de alta performance. E voltou sempre. Tudo isso mexe, dá movimento, e não preenche. Anestesia por uns dias.
A conta é simples. A tua fome é feita pra uma coisa que não acaba, e você vem alimentando ela de coisa que acaba. O finito sacia por um dia e nunca enche. Esse é o motor.
Enquanto ele gira, o preço é sempre o mesmo. Mais um mês no loop, gastando dinheiro, tempo e segundas-feiras, com a mesma fome no fim.